Eni e as Gigantes Renováveis: Expansão Verde ou Rebranding Climático?

A multinacional italiana de energia Eni S.p.A., historicamente conhecida por sua atuação no setor de petróleo e gás, está atualmente acelerando sua estratégia de transição energética. Mas a questão que paira sobre esse movimento é: até que ponto essa guinada é real e sustentável, ou apenas uma estratégia de greenwashing bem posicionada?

A promessa da Plenitude: renováveis com escala

Através de sua subsidiária Plenitude, a Eni planeja construir cerca de 15 GW de capacidade instalada em energias renováveis até 2030. Esse número a colocaria entre os grandes players do setor, ao lado de gigantes como Iberdrola, Enel e Ørsted. Até 2024, a empresa já planeja atingir 7 GW em operação.

A Plenitude atua em quatro frentes principais:

  1. Geração de energia renovável (solar, eólica onshore/offshore)
  2. Comercialização de energia e gás
  3. Infraestrutura de carregamento para veículos elétricos
  4. Eficiência energética para edifícios e empresas

Essa verticalização busca criar uma cadeia de valor que vai da produção à entrega final, com foco em reduzir emissões de escopo 3 (aquelas relacionadas ao uso do produto pelo consumidor final).

Transição guiada por lucros

Embora a estratégia seja vendida como uma transição verde, os incentivos econômicos são uma peça central. A União Europeia, através de seu plano climático Fit for 55 e outras iniciativas do Green Deal, está oferecendo subsídios bilionários e marcos regulatórios favoráveis a empresas que investem em energia limpa.

A Eni se posiciona, portanto, não apenas como uma empresa que deseja se tornar mais limpa, mas também como uma investidora inteligente que reconhece onde estará o dinheiro no futuro.

Segundo o Financial Times, a expectativa é que o braço de energia limpa da Eni gere lucro operacional positivo a partir de 2026.

O paradoxo da descarbonização por petrolíferas

Mas nem tudo são flores: a Eni ainda investe fortemente em novos campos de petróleo e gás, especialmente na África. Em 2022, a empresa reportou mais de 50 bilhões de euros em receitas do setor fóssil, o que mostra que a transição não está, nem de longe, completa.

Essa dualidade levanta uma crítica comum: como uma empresa pode liderar a transição energética se continua a expandir sua produção de combustíveis fósseis?

Essa crítica se intensifica considerando que parte da energia renovável produzida pela Plenitude pode estar compensando emissões próprias da Eni, criando uma espécie de balanço contábil verde, mas que na prática não reduz as emissões líquidas da companhia.

O papel geopolítico da Eni

Com forte presença na Líbia, Egito e países da África Subsaariana, a Eni tem interesses geopolíticos estratégicos. Muitos dos projetos de energia renovável também estão sendo alocados em países africanos, o que acende um alerta para riscos de neocolonialismo energético.

Ao mesmo tempo, isso pode trazer investimentos e empregos para regiões negligenciadas — dependendo de como forem conduzidos os projetos e da participação das comunidades locais nos lucros e nas decisões.

Conclusão

A Eni tenta se reinventar como uma potência energética limpa, mas carrega em sua base o DNA das petroleiras. Enquanto avança com grandes metas de energia renovável, mantém investimentos polêmicos em combustíveis fósseis, o que torna sua transição energética parcial e passível de crítica.

O futuro da empresa — e talvez do planeta — dependerá de quão sincera e total será essa transformação. E enquanto isso, cabe à sociedade civil, governos e consumidores acompanharem de perto e exigirem transparência e compromisso real com a descarbonização.


Referências:

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